EMMAUS ANGLICAN ABBEY

Buscamos ser uma luz para Monges-urbanos quando em comunidade juntos buscam a vivência monástica e evangélica mesmo inseridos na Sociedade e Eremitas Urbanos aqueles que nos buscam para viver sua espiritualidade em silêncio e Solidão mesmo em meio a sociedade, saindo apenas para as necessidades básicas de trabalho e afins

ABADIA DE EMAÚS

Somos uma comunidade monástica ecumênica na tradição beneditina e de Taizé e da Community of Solitude A Comunidade de Emaús é uma comunidade intencional que compartilha uma vida comum de oração solidária ( através das Jornadas da Esperança e Jornadas da Confiança ) e trabalho social.

Venha nos conhecer !

16/04/2017

Feliz Páscoa

A Páscoa Cristã traz a possibilidade de redenção dos pecados e dos erros por meio da ressurreição interior com mudanças efetivas em nosso modo de viver. Viver a ressurreição interior é ser capaz de mudar, é partilhar a vida na esperança, é lutar para vencer toda sorte de sofrimento. É ajudar mais gente a ser gente, é viver em constante libertação, é crer na vida que vence a morte. É dizer sim ao amor e a vida, é investir na fraternidade, é lutar por um mundo melhor, é vivenciar a solidariedade. É renascimento, é recomeço, é uma nova chance para melhorarmos as coisas que não gostamos em nós, para sermos mais felizes por conhecermos a nós mesmos mais um pouquinho e vermos que hoje, somos melhores do que fomos ontem.

Feliz Páscoa !

 

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12/04/2017

DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO DO SENHOR – ANO A

9 de Abril de 2017





Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 26, 14-27; 27, 1-66)

Naquele tempo, um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes e disse-lhes: «Quanto me dareis, se eu vo-lo entregar?» Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. E, a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus.

No primeiro dia da festa dos Ázimos, os discípulos foram ter com Jesus e perguntaram-lhe: «Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?» Ele respondeu: «Ide à cidade, a casa de um certo homem e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: O meu tempo está próximo; é em tua casa que quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos.’» Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara e prepararam a Páscoa. Ao cair da tarde, sentou-se à mesa com os Doze. Enquanto comiam, disse: «Em verdade vos digo: Um de vós me há-de entregar.» Profundamente entristecidos, começaram a perguntar-lhe, cada um por sua vez: «Porventura serei eu, Senhor?» Ele respondeu: «O que mete comigo a mão no prato, esse me entregará. O Filho do Homem segue o seu caminho, como está escrito acerca dele; mas ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue. Seria melhor para esse homem não ter nascido!» Judas, o traidor, tomou a palavra e perguntou: «Porventura serei eu, Mestre?» «Tu o disseste» – respondeu Jesus. Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, depois de pronunciar a bênção, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: «Tomai, comei: Isto é o meu corpo.» Em seguida, tomou um cálice, deu graças e entregou-lho, dizendo: «Bebei dele todos.

De manhã cedo, todos os sumos sacerdotes e anciãos do povo se reuniram em conselho contra Jesus, para o matarem. E, manietando-o, levaram-no ao governador Pilatos. Então Judas, que o entregara, vendo que Ele tinha sido condenado, foi tocado pelo remorso e devolveu as trinta moedas de prata aos sumos sacerdotes e aos anciãos, dizendo: «Pequei, entregando sangue inocente.» Eles replicaram: «Que nos importa? Isso é lá contigo.» Atirando as moedas para o santuário, ele saiu e foi enforcar-se.

Os sumos sacerdotes, apanhando as moedas, disseram: «Não é lícito lançá-las no tesouro, pois são preço de sangue.» Depois de terem deliberado, compraram com elas o «Campo do Oleiro», para servir de cemitério aos estrangeiros. Por tal razão, aquele campo é chamado, até ao dia de hoje, «Campo de Sangue.» Deste modo, cumpriu-se o que fora dito pelo profeta Jeremias: Tomaram as trinta moedas de prata, preço em que foi avaliado aquele que os filhos de Israel avaliaram, e deram-nas pelo Campo do Oleiro, como o Senhor havia ordenado.»

Jesus foi conduzido à presença do governador, que lhe perguntou: «Tu és o Rei dos Judeus?» Jesus respondeu: «Tu o dizes.» Mas, ao ser acusado pelos sumos sacerdotes e anciãos, nada respondeu. Pilatos disse-lhe, então: «Não ouves tudo o que dizem contra ti?» Mas Ele não respondeu coisa alguma, de modo que o governador estava muito admirado.

Ora, por ocasião da festa, o governador costumava conceder a liberdade a um prisioneiro, à escolha do povo. Nessa altura havia um preso afamado, chamado Barrabás. Pilatos perguntou ao povo, que se encontrava reunido: «Qual quereis que vos solte: Barrabás ou Jesus, chamado Cristo?» Ele sabia que o tinham entregado por inveja.

Enquanto estava sentado no tribunal, a mulher mandou-lhe dizer: «Não te intrometas no caso desse justo, porque hoje muito sofri em sonhos por causa dele.» Mas os sumos sacerdotes e os anciãos persuadiram a multidão a pedir Barrabás e exigir a morte de Jesus. Tomando a palavra, o governador inquiriu: «Qual dos dois quereis que vos solte?» Eles responderam: «Barrabás!» Pilatos disse-lhes: «Que hei-de fazer, então, de Jesus chamado Cristo?» Todos responderam: «Seja crucificado!» Pilatos insistiu: «Que mal fez Ele?» Mas eles cada vez gritavam mais: «Seja crucificado!»

Pilatos, vendo que nada conseguia e que o tumulto aumentava cada vez mais, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo: «Estou inocente deste sangue. Isso é convosco.» E todo o povo respondeu: «Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos!» Então, soltou-lhes Barrabás. Quanto a Jesus, depois de o mandar flagelar, entregou-o para ser crucificado. Os soldados do governador conduziram Jesus para o pretório e reuniram toda a corte à volta dele. Despiram-no e envolveram-no com um manto escarlate. Tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e uma cana na mão direita. Dobrando o joelho diante dele, escarneciam-no, dizendo: «Salve! Rei dos Judeus!» E, cuspindo-lhe no rosto, agarravam na cana e batiam-lhe na cabeça. Depois de o terem escarnecido, tiraram-lhe o manto, vestiram-lhe as suas roupas e levaram-no para ser crucificado. À saída, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e obrigaram-no a levar a cruz de Jesus.

Quando chegaram a um lugar chamado Gólgota, isto é, «Lugar do Crânio», deram-lhe a beber vinho misturado com fel; mas Ele, provando-o, não quis beber. Depois de o terem crucificado, repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte. Ficaram ali sentados a guardá-lo. Por cima da sua cabeça, colocaram um escrito, indicando a causa da sua condenação: «Este é Jesus, o rei dos Judeus.» Com Ele, foram crucificados dois salteadores: um à direita e outro à esquerda.
Os que passavam injuriavam-no, meneando a cabeça e dizendo: «Tu, que destruías o templo e o reedificavas em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és Filho de Deus, desce da cruz!» Os sumos sacerdotes com os doutores da Lei e os anciãos também zombavam dele, dizendo: «Salvou os outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é o rei de Israel, desça da cruz, e acreditaremos nele. Confiou em Deus; Ele que o livre agora, se o ama, pois disse: ‘Eu sou Filho de Deus!’» Até os salteadores, que estavam com Ele crucificados, o insultavam.
Desde o meio-dia até às três horas da tarde, as trevas envolve
ram toda a terra. Cerca das três horas da tarde, Jesus clamou com voz forte: Eli, Eli, lemá sabactháni?, isto é: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? Alguns dos que ali se encontravam, ao ouvi-lo, disseram: «Está a chamar por Elias.» Um deles correu imediatamente, pegou numa esponja, embebeu-a em vinagre e, fixando-a numa cana, dava-lhe de beber. Mas os outros disseram: «Deixa; vejamos se Elias vem salvá-lo.» E Jesus, clamando outra vez com voz forte, expirou.

Então, o véu do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo. A terra tremeu e as rochas fenderam-se. Abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos, que estavam mortos, ressuscitaram; e, saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos. O centurião e os que com ele guardavam Jesus, vendo o tremor de terra e o que estava a acontecer, ficaram apavorados e disseram: «Este era verdadeiramente o Filho de Deus!»
Estavam ali, a observar de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia e o serviram. Entre elas, estavam Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.

Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se tornara discípulo de Jesus. Foi ter com Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Pilatos ordenou que lho entregassem. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo e depositou-o num túmulo novo, que tinha mandado talhar na rocha. Depois, rolou uma grande pedra contra a porta do túmulo e retirou-se. Maria de Magdala e a outra Maria estavam ali sentadas, em frente do sepulcro.

No dia seguinte, que era o dia a seguir ao da Preparação, os sumos sacerdotes e os fariseus reuniram-se com Pilatos e disseram-lhe: «Senhor, lembrámo-nos de que aquele impostor disse, ainda em vida: ‘Três dias depois hei-de ressuscitar.’ Por isso, ordena que o sepulcro seja guardado até ao terceiro dia, não venham os discípulos roubá-lo e dizer ao povo: ‘Ressuscitou dos mortos.’ E seria a última impostura pior do que a primeira.» Pilatos respondeu-lhes: «Tendes guardas. Ide e guardai-o como entenderdes.» E eles foram pôr o sepulcro em segurança, selando a pedra e confiando-o à vigilância dos guardas.

Quem sou eu?

Esta semana começa com a festiva procissão dos ramos de oliveira: todo o povo acolhe Jesus. As crianças, os adolescentes cantam, louvam Jesus.

Mas esta semana continua com o mistério da morte de Jesus e da sua ressurreição. Ouvimos a Paixão do Senhor. Será bom pormo-nos apenas uma pergunta: Quem sou eu? Quem sou eu, face ao meu Senhor? Quem sou eu à vista de Jesus que entra festivamente em Jerusalém? Sou capaz de exprimir a minha alegria, de O louvar? Ou fico à distância? Quem sou eu, face a Jesus que sofre?

Escutámos muitos nomes, muitos nomes. O grupo dos líderes, alguns sacerdotes, alguns fariseus, alguns doutores da lei, que decidiram matá-Lo. Esperavam só a oportunidade boa para O prenderem. Sou eu como um deles?

Ouvimos também outro nome: Judas. Trinta moedas. Sou eu como Judas? Escutámos outros nomes: os discípulos que não entendiam nada, que adormeciam enquanto o Senhor sofria. A minha vida está adormecida? Ou sou como os discípulos, que não compreendiam o que era trair Jesus? Ou então como aquele discípulo que queria resolver tudo com a espada: sou eu como eles? Sou como Judas, que finge de amar e beija o Mestre para O entregar, para O trair? Sou eu um traidor? Sou eu como aqueles líderes que montam à pressa o tribunal e procuram testemunhas falsas: sou eu como eles? E, quando faço estas coisas – se é que as faço –, creio que, com isso, salvo o povo?

Sou eu como Pilatos? Quando vejo que a situação é difícil, lavo as mãos e não assumo a minha responsabilidade, condenando ou deixando condenar as pessoas?
Sou eu como aquela multidão que não sabia bem se estava numa reunião religiosa, num julgamento ou num circo, e escolhe Barrabás? Para ela tanto valia: era mais divertido, para humilhar Jesus.

Sou eu como os soldados, que batem no Senhor, cospem-Lhe em cima, insultam-No, divertem-se com a humilhação do Senhor?

Sou eu como Simão de Cirene que voltava do trabalho, cansado, mas teve a boa vontade de ajudar o Senhor a levar a cruz?

Sou eu como aqueles que passavam diante da Cruz e escarneciam de Jesus: «Era tão corajoso! Desça da cruz e nós acreditaremos n’Ele!». Escarnecem de Jesus...

Sou eu como aquelas mulheres corajosas, e como a Mãe de Jesus, que estavam lá e sofriam em silêncio?

Sou eu como José, o discípulo oculto, que leva o corpo de Jesus, com amor, para Lhe dar sepultura?

Sou eu como as duas Marias que permanecem junto do sepulcro chorando, rezando?

Sou eu como aqueles líderes que, no dia seguinte, foram ter com Pilatos para lhe dizer: «Olha que Ele afirmava que havia de ressuscitar. Não queremos mais enganos!» e bloqueiam a vida, bloqueiam o sepulcro para defender a doutrina, para que a vida não irrompa?

Onde está o meu coração? Com qual destas pessoas me pareço? Que esta pergunta nos acompanhe durante toda a semana (Papa Francisco).

Palavra para o caminho

Para entendermos a entrada de Jesus em Jerusalém que se comemora no Domingo de Ramos convém ter presente o que diz o profeta Zacarias: “Exulta de alegria, filha de Sião! Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti;  Ele é justo e vitorioso; vem, humilde, montado num jumento, sobre um jumentinho, filho de uma jumenta. Ele exterminará os carros de guerra da terra de Efraim e os cavalos de Jerusalém; o arco de guerra será quebrado. Proclamará a paz para as nações. O seu império irá de um mar ao outro e do rio às extremidades da terra” (Zc 9, 9-10). De notar que Zacarias escreveu esta página deslumbrante de um Rei diferente, pobre, manso e humilde, em contraponto com o imponente espectáculo do grande Alexandre Magno, quando este, em finais do século IV a. C., descia a costa palestinense a caminho do Egipto, com todo o seu arsenal de riqueza e de prepotência militar!

Um rei jamais entraria numa cidade montado num jumento (o animal do pobre camponês), mas num cavalo branco de raça! Jesus, fazendo a sua entrada assim, faz uma releitura de Zacarias, e identificou-se com o rei pobre, manso e humilde!
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AS ÉPOCAS DO CORAÇÃO

AS ÉPOCAS DO CORAÇÃO
Um Coração que escuta - A Vida Contemplativa





    John Welch, O. Carm.
    Deus, sempre presente

    Uma das mensagens mais impressionantes transmitida pelos santos Carmelitas foi a descoberta do facto de que Deus nos ama primeiro tal como somos. Pensando que procuravam um Deus ausente e que a vida consistia na procura desse Deus, os santos Carmelitas regressavam dos seus esforços testemunhando que foi o próprio Deus a procurá-los durante todo aquele tempo, e que a história das nossas vidas não é a procura que fazemos de Deus, mas o desejo que Deus tem de nós e a procura que Ele faz de nós. A fome do nosso coração, o desejo de que somos, é devida ao facto de que Deus nos desejou e amou primeiro. Com o decorrer do tempo pode suceder que a nossa transformação seja tão grande que vivamos numa consonância de desejo, com o nosso desejo humano participando plenamente do desejo de Deus.

    Em certa ocasião Teresa de Ávila ouviu estas palavras enquanto orava: “Procura-te em mim”! Perguntou a muitos dos seus amigos e a alguns directores espirituais de Ávila o significado de: “Procura-te em mim”! Entre as pessoas a quem perguntou estavam Francisco de Salcedo, um director espiritual leigo, o seu irmão Lourenço de Cepeda e João da Cruz. Reuniram-se para discutir as suas respostas mas Teresa não estava presente e por isso decidiram enviá-las. Seguindo a tradição das disputas académicas, praticada em algumas escolas, Teresa encontrou alegremente falta em cada resposta e subtilmente riu-se de cada uma delas. Não temos as respostas mas as rejeições de Teresa a essas mesmas respostas. Na sua resposta, Francisco de Salcedo citara muitas vezes S. Paulo e termina desculpando-se, humildemente, por ter “escrito estupidezes”. Teresa repreende-o por considerar as palavras de S. Paulo “estupidezes”, ameaçando-o entregá-lo à Inquisição.

    Supõe-se que João da Cruz tenha respondido que o significado de “Procura-te em mim!” exigia que ela morresse para o mundo para se poder buscar em Deus. Teresa contestou-o com uma oração na qual pedia ser liberta de gente tão espiritual como João da Cruz. Disse-lhe que a sua resposta podia ser boa para os membros da Companhia de Jesus, mas não para aqueles a quem tinha em mente. A vida não é suficientemente longa se temos que morrer para o mundo antes de encontrar Deus. Citando o Evangelho, Teresa fazia notar que Maria Madalena não estava morta para o mundo antes de se encontrar com Jesus; tão pouco a mulher cananeia estava morta para o mundo antes de pedir as migalhas da mesa. E a mulher samararitana tão pouco estava morta para o mundo antes de se encontrar com Jesus no poço. Era quem era e Jesus aceitou-a. Teresa termina a sua resposta agradecendo a João da Cruz por ter respondido ao que não lhe tinha pedido.

    O que Teresa pretende demonstrar é que Deus vem ao nosso encontro e nos aceita tal qual somos no percurso da nossa vida. Fomos aceites por Ele desde sempre. O desafio que nos é colocado é o de acolher esta Presença que nos aceita, e permitir que nos transforme. A realidade deste abraço é a essência da nossa oração. Orar, portanto, é entrar confiadamente nesta relação e fazer dela o fundamento da nossa vida. É fácil em teoria, mas muito difícil vivê-la diariamente.

    Um teólogo resumiu desta maneira a mensagem de Teresa: o melhor modo de cooperar com Deus que corrige a orientação da nossa vida, é prestar uma fiel e constante atenção ao nosso íntimo e ao nosso centro.

    Atraídos pelo amor

    A tradição Carmelita pode ser mal compreendida. O Carmelo pode parecer dizer às pessoas que somente um rigoroso ascetismo pode conduzi-las à união com Deus; que os ídolos da nossa vida podem ser derrubados unicamente através de esforços heróicos e de uma vida isolada e austera quando, na verdade, a mensagem do Carmelo é a da necessidade da graça de Deus e a boa notícia é a de que a graça está sempre disponível: basta que a nossa vida se lhe abra.

    Na Subida do Monte Carmelo João da Cruz dá alguns conselhos para nos ajudar a desapegar dos ídolos que nos submeteram ao seu serviço. Os conselhos, num primeiro momento, podem parecer absurdamente intransigentes e, às vezes, também desproporcionados. Mas João é rápido em afirmar que a força de vontade e o ascetismo sozinhos, não podem libertar o coração escravizado pelos ídolos. O ídolo fornece algum alimento ao coração esfomeado de Deus. O ídolo talvez lhe proporcione alguma alegria, alguma identidade, alguma segurança ao peregrino esfomeado. O coração por si mesmo é incapaz de afastar-se deste alimento e entrar num vazio afectivo, esperando pelo Senhor.

    João testemunha que só quando o coração tem uma oferta melhor é que pode então desapegar-se do que estava apegado anteriormente com todas as forças. Só quando Deus entra numa vida e acende nela um amor no mais fundo da pessoa e a aparta dos amores de menor valor, só então é que esta pessoa pode abrir-se e desapegar-se dos ídolos. Com um convite de um amor como este, o que antes era impossível (deixar os ídolos) torna-se gradualmente possível, enquanto os ídolos se vão desvanecendo. O coração vai passando então de um amor para outro. Porque João está convencido de que Deus é o centro da alma, a tarefa não é encontrar um Deus distante, mas despertar em nós a consciência da realidade de um Deus “que sempre esteve aí”.

    “Tudo é graça”, disse Teresa de Lisieux, que expressou esta convicção enquanto morria de tuberculose, rodeada de uma espiritualidade que desconfiava da natureza humana, e que na convicção de que o amor de Deus deveria ser merecido convidava as “almas vítimas” a acalmar a ira de Deus. Quando lhe disseram que não podia receber a Santa Comunhão, a resposta de Teresa foi simplesmente que assim como era uma graça poder recebê-la, todavia continuava a ser uma graça, agora que não a podia receber. “Tudo é graça”.

    Teresa de Lisieux estava convencida de que Deus estava sempre presente nela, que a amava e que este amor era gratuito, sem mérito algum da sua parte. Falando dos méritos dizia com simplicidade: “Não tenho nenhum”.

    Teresa conhecia a justiça de Deus e estava consciente do facto de que pessoas devotas ofereciam-se a si mesmas como vítimas a essa justiça, para que os pecadores fossem perdoados e Deus aplacado. Este Deus não era familiar a Teresa. Nenhum dos rostos de Deus presentes na sua vida exigia ser aplacado: nem sua mãe, nem seu pai; nem Paulina, nem Celina; nem Maria, nem o Deus da Bíblia hebraica que amava os pequenos, nem Jesus que chamou os pequenos a vir a si; nem mesmo o Amado do Cântico dos Cânticos ou das poesias de João da Cruz. Teresa acreditava que Deus é justo, mas que esta justiça conhece muito bem a nossa pequenez e leva-a em conta.

    Teresa de Lisieux foi descrita certa vez como “um Vaticano II em miniatura”. A atenção recente prestada à sua mensagem recorda-nos que não se deve dar prioridade aos nossos méritos e esforços, mas a uma vida vivida na confiança e na entrega. Teresa começa a sua autobiografia com as palavras de S. Paulo aos Romanos: “Portanto não depende da vontade nem dos esforços humanos, mas de Deus que usa de misericórdia”.

    Teresa antecipou-se à teologia dos nossos dias que entende a graça como graça incriada, uma presença, plena de amor e salvífica, do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Quando falamos de contemplação, simplesmente estamos a encorajar a abertura a este amor gratuito que nos é concedido. Deus vem continuamente até nós convidando-nos a entrar, mais livremente, na profundidade da nossa vida, numa relação de amor. Contemplação significa estar abertos a este amor transformante, sem levar em conta o modo como se aproxima de nós. 

    A contemplação reorientada 

    Um dos desenvolvimentos recentes na compreensão do carisma Carmelita é o novo lugar atribuído à contemplação entre as nossas prioridades. Sempre se falou da oração, da comunidade e do ministério como os três pilares do nosso carisma. A contemplação era vista como uma forma de oração superior ou mais profunda, e algumas vezes, na nossa história, ministério e contemplação apareciam como que em contraposição entre si. Não obstante, aqui temos uma descrição da contemplação que se encontra no documento da Ordem Carmelita sobre a formação: “Nesta progressiva e contínua transformação em Cristo realizada em nós pelo Espírito, Deus atrai-nos para Si num caminho interior que conduz da periferia dispersante da vida para a cela mais íntima do nosso ser, onde Ele mora e nos une a Si”.

    Começamos a entender agora que a contemplação fundamenta e une a oração, a comunidade e o ministério. A porta principal é a oração, mas o amor de Deus é-nos oferecido de várias maneiras nas diversas realidades da nossa vida através das quais podemos entrar nessa abertura contemplativa de Deus, isto é, viver uma vida autêntica de fé, esperança e amor, através de qualquer destes três caminhos. Não são caminhos opostos mas são janelas abertas para a realidade transcendente que se alberga no mais fundo da nossa vida e nos permitem contactar com o Mistério.

    É importante sublinhar esta perspectiva, porque o Carmelo teve oitocentos anos de ministério como resposta à Igreja e ao povo de Deus e, se Deus quiser, terá muitos mais séculos de serviço desinteressado. E nada disto é contrário à vida contemplativa. Muitos Carmelitas foram transformados em pessoas mais cheias de amor, graças ao seu empenho com o povo de Deus nos vários ministérios.

    O Arcebispo Romero foi transformado e convertido pelo amor de Deus não só na solidão da sua oração, como também no seu compromisso com o Senhor da história, nos duros esforços do povo por encontrar o seu lugar no banquete da vida. A contemplação deveria ser a fonte mais profunda de compaixão pelo nosso mundo. O contemplativo é aquele que foi levado a entrar na pobreza e impotência absolutas de uma alma sem Deus. O contemplativo aprende a esperar na esperança juntamente com todos aqueles que esperam a misericórdia de Deus. Nesta escuta contemplativa aprende-se a dizer: “Somos pobres”!

    A nossa vivência contemplativa, a nossa abertura ao amor de Deus que vem até nós nos bons e maus momentos, é um dom que podemos compartilhar com os outros. O que aconteceu na vida dos santos do Carmelo e na vida dos Carmelitas de hoje, acontece na vida de todos. Poderemos dar um testemunho melhor se pusermos a atenção no que somos: uma fraternidade contemplativa no meio do povo.

    Falando à Congregação Geral da Ordem em 1999, um Carmelita alemão acentuou este carisma contemplativo: “Creio firmemente que a nossa primeira tarefa é colocar muita da nossa energia, tempo, talento e capacidades pessoais neste processo de uma crescente relação com o Deus da vida e do amor. O nosso crescimento pessoal, humano e espiritual, assim como também o nosso futuro como Ordem, dependem do quanto estejamos dispostos a conceder e a desenvolver  esta íntima amizade com Deus, quer individualmente quer comunitariamente, para podermos ser transformados segundo a imagem de Cristo, que actua através de nós para o bem da Igreja e do mundo”.

    Resumo
    A história do Amado que vem ao encontro da Amada para atrair o seu coração para uma profunda união, é a história protótipo que os Carmelitas experimentaram repetidas vezes. A nossa vida não pode ser forçada à submissão a não ser que seja conduzida pelo amor. Não podemos deixar o apego aos nossos ídolos se Deus não acender no nosso coração um amor mais profundo. O coração tem então um lugar para onde ir e pode confiadamente desamarrar-se das suas “ataduras”, dependências e ídolos. O amor de Deus, sempre presente e oferecido, atrai o coração até à profundidade de Deus, “entremos mais adentro na espessura”, aí encontra-se com o sofrimento do mundo. A nossa atitude contemplativa não nos afasta das preocupações do mundo mas lança-nos para a luta corajosa no mundo.

    Perguntas para reflexão

    • Como “sentinela na noite” mantenho-me vigilante à espera da chegada do amor de Deus? Na minha vida onde me sinto chamado a uma escuta mais profunda? Onde encontro os desafios contínuos para a minha mente e o meu coração? Estes desafios são convites para me entregar, de um modo mais profundo, ao amor transformante de Deus?
    • Entre os sinais atuantes do amor de Deus estão uma crescente confiança na Sua misericórdia e uma crescente liberdade perante aquilo que escraviza o coração. Experimento esta crescente confiança? Estou consciente de uma maior liberdade? Na verdade entreguei-me ao Mistério que se alberga no centro da minha vida ou continuo a lutar por assegurar a minha própria existência?
    • Vi o rosto de Cristo no rosto das pessoas a quem sirvo? Consigo reconhecer o convite do amor transformante de Deus quando se aproxima de mim disfarçado numa cultura particular?
    • Na minha comunidade e no meu ministério, como posso ajudar a criar as condições para “um coração que escuta”? 
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